
Opinião
Confesso que de início senti que este livro deixava muito a desejar, daí ter passado tantos meses na minha mesa-de-cabeceira. Até cerca de meio não achei a história para lá de interessante apesar de ter tido alguns momentos em que me senti verdadeiramente emocionada mais pelos acontecimentos em si do que pela forma como estavam a ser contados. Tudo muda a partir desse ponto, pelo que valeu a pena não ter desistido.
De acordo com o que é contado neste livro, a linhagem de descendentes directos de Maria Madalena resumem-se, após as primeiras páginas a Bridget. Tal como todas as outras antes de si (por a linhagem é caracterizada por ser feminina), é detentora de poderes místicos que vão desde algum tipo de controlo sobre o natureza, premonição, visão e dom da cura.
Por altura do início do século XIII, os Cátaros (de quem nunca tinha ouvido falar antes mas que graças a este livro fiquei a conhecer um pouco e a desejar conhecer mais) são perseguidos pela Igreja Católica que os pretende exterminar (what else is new) dada a popularidade que começam a ter entre as pessoas e devido às suas crenças heréticas.
Forçada a estar em constante movimento para fugir àqueles que pretendem vê-la queimada numa fogueira, Bridget, acompanhada por dois cátaros (um deles seu familiar), vê pela primeira vez Raoul de Montvallant no dia do seu casamento com Claire, desde logo, se percebe que, apesar do breve encontro, o destino deles voltará a cruzar-se ao longo do livro.
Não existe propriamente um triângulo amoroso entre estas personagens pois quando dois se cruzam o terceiro se afasta ou é afastado por circunstâncias da vida.
A meu ver, o enfoque deste livro é a perseguição dos Igreja aos Cátaros, e seus simpatizantes, em que o factor Romance apenas existe para fazer o enquadramento dos factos históricos. Será uma espécie de homenagem a estes, ao seu modo de vida, aos seus valores e doutrina.
A violência em nome de qualquer religião ou deus é algo que sempre me chocou. A barbaridade, os crimes, o número incontável de vidas despedaçadas pelas quais a Igreja Católica é responsável (assim como outras religiões) ao longo dos séculos (e que infelizmente continua a despedaçar indirectamente com as suas políticas retrógradas e inflexíveis) é algo absolutamente inacreditável. A forma como a perseguição aos Cátaros é descrita neste livro é ilustrativa da demência que reinou durante tempo demais e em que tudo era permitido em nome de Deus.
O livro tem uma duração temporal de cerca de 40 anos, em que vamos acompanhando as vidas de Bridget, Raoul e Claire e seus respectivos filhos e em como estas se cruzam, por vezes em lados por vezes opostos desta batalha, o que nos dá uma visão mais abrangente dos acontecimentos. Com poucas personagens centrais (tendo em conta especialmente o tempo em que decorre a acção), e centrando a história nos seus dilemas e vivências, Elizabeth Chadwick consegue dar-nos a conhecer um pouco da História deste período tão negro da História da Humanidade, e acho que é isso que se quer num romance histórico.
Achei que este livro é pautado por um tom triste onde, se me permitem a fraca comparação, parece que estamos constantemente embrenhados nas trevas e que poucos são os raios de sol que conseguem penetrar para dar um pouco de alegria. As personagens vivem vidas de sacrifício e abnegação onde os momentos de felicidade são escassos e fugazes.
Não é um livro que tenho um lugar especial no meu coração, nem o acho propriamente uma obra de grande significância ou obrigatória. É, no entanto, um livro recomendável para quem gosta de romances históricos.
Ficha Técnica
